Rodada 1 · Diálogo
A Última Conversa
— Fogo ou água? — perguntou o sequestrador.
— Água.
Ele sorriu e incendiou a casa.
Aprendi tarde:
Há perguntas que não querem resposta —
Querem obediência.
Campeonato de microcontos · Autores
21 microcontos no 11º campeonato, com 10 das 11 palavras.
Rodada 1 · Diálogo
— Fogo ou água? — perguntou o sequestrador.
— Água.
Ele sorriu e incendiou a casa.
Aprendi tarde:
Há perguntas que não querem resposta —
Querem obediência.
Rodada 2 · Fotografia
Domingo, ela desperta a tela, marca dez segundos e apoia o aparelho entre livros antes de correr para caber no meio. Ele a puxa pela cintura; o menino se pendura no pescoço dos dois. A cena fixa três sorrisos sob a mesma aliança. Na segunda-feira, a moldura guardava o sorriso; o meio retirava o sobrenome.
Rodada 3 · Bolso
No velório, brigaram por relógio, casa, terreno.
A neta ficou com o casaco.
No bolso, a escritura
no nome dela.
Rodada 3 · Bolso
Antes de entrar na escola, mandaram esvaziar os bolsos.
Caiu um carrinho sem roda,
um papel de bala,
um bilhete amassado:
“volta cedo, filho”.
Não acharam nada perigoso.
Só o corpo certo
no lugar errado.
Rodada 3 · Bolso
A foto do pai morava no bolso do paletó.
Ele assinava cortes em massa.
Antes de cada assinatura,
alisava o retrato.
Nunca o tirou do bolso.
Tirou os outros.
Rodada 4 · Banda
O roteador piscava jurando alcance total.
Ele navegou o mundo pela tela.
A rede caiu. O silêncio seguiu online.
Descobriu: o mundo carregava. Ele não.
Rodada 4 · Banda
Começou em acorde.
Soou como acordo.
Um marcou o compasso.
Outros alinharam o passo.
Sem partitura, partiram.
Cumpriam.
Chamavam de banda.
Descobriram tarde: era bando.
Rodada 5 · Ficção
No tapete, o menino treina e faz de conta que o inimigo se rende num abraço. Cinquenta anos depois, ele encara a foto e agora — faz e conta: o abraço no front serviu apenas para monitorar o último batimento do homem que amava e acabara de esfaquear.
Rodada 5 · Ficção
No palco, o ator aperta o pescoço da esposa. O público aplaude o realismo da face roxa e das unhas cravadas em seus pulsos. As cortinas fecham, ele não solta. O diretor grita "corte", mas o marido sorri: para a crítica ser perfeita, a atriz não pode levantar para o agradecimento.
Rodada 5 · Ficção
O editor louvou o realismo. Leitores devoram o mistério do sumiço da família do protagonista. Do jardim, o autor observa a grama alta, adubada pelo silêncio de quem ele apagou do mundo e chamou de rascunho.
Rodada 6 · Cobre
Porteiro, rondava com uma moeda de cobre. — Pra não dar choque. Tocava as maçanetas. Algumas cediam.
Virou síndico. Presidia a assembleia quando o 302 sustentou o olhar. Não apontou o dedo. Caminhou e encostou no seu ombro.
O cobre, desta vez, não isolou a descarga.
Rodada 6 · Cobre
Prometeu que “cobre qualquer oferta”.
Candidato sorridente, palanque armado.
Ganhou.
Cobriu tudo.
Processos.
Amigos.
Desvios.
O país ficou exposto.
Rodada 7 · Melancia
No asfalto quente, o rastro de polpa e sementes morre no meio-fio. Sem marcas de freio, o caminhão seguiu. O motorista só parou quando, no retrovisor, viu que a casca verde usava chinelos de borracha e ainda segurava, intacta, a mão de uma criança.
Rodada 7 · Melancia
O franco-atirador vigiava a estrada sob o sol de agosto. Pela mira, viu o garoto carregar o globo verde como um troféu. O dedo hesitou no gatilho. Quando o projétil finalmente cortou o ar, buscou o peito. A melancia explodiu, e o soldado chorou enquanto o menino lambia o chão.
Rodada 7 · Melancia
A semente brotou sob a língua, selando os lábios dela. No ultrassom, algo arredondado empurrava as costelas. No parto, o bisturi não revelou sangue nem choro. O médico tateou a incisão e retirou, madura e gelada, a polpa que pulsava no lugar do coração.
Rodada 9 · Toa
O GPS recalcula a rota pela décima vez. Ele mantém o pé no acelerador enquanto o ponteiro do combustível beija o zero. Pela janela, os postos de gasolina passam como fantasmas. Ele não busca um destino; ele apenas espera que o motor morra antes que o pensamento o alcance.
Rodada 9 · Toa
A água subiu até o queixo. Ele não desatou os nós das botas; o couro encharcado ajuda a ancorar o corpo ao fundo. No horizonte, o barco é um traço indiferente que some. Ele fecha os olhos e abre a boca, deixando que o oceano, enfim, decida por ele.
Rodada 10 · Umbigo
Catava fiapos do umbigo enquanto andava. Olhos baixos, centro fixo.
Tropeçou.
Havia alguém no chão. Reclamou do susto, do atraso. Só depois viu o sangue no sapato.
Não era dele.
Rodada 10 · Umbigo
Ela cozinhava.
Eu consumo.
Ela fazia.
Eu posto.
Ela tirava óleo do coco.
Eu tiro o foco.
Ela via o mundo.
Eu vejo o umbigo.
Rodada 11 · Moeda
No abrigo, cada recém-nascido recebe uma moeda. Encostam no peito: se gruda, fica. Se cai, não entra no livro.
A dela caiu.
A enfermeira tentou outra, mais densa.
Caiu também.
A mãe guardou as duas no sutiã.
Anos depois, a cidade inteira começou a perder o próprio peso.
Rodada 11 · Moeda
— Falta uma. Não aceito menos.
O barqueiro aguardou; nada saiu dos bolsos. Conferiu o trocado e desatracou. No meio da corrente, ele empurrou; o peso morto cruzou a borda. O volume cedeu e a água engoliu.
Do outro lado, silêncio por troco.
Na ficha: Quitado.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.
Escolha uma palavra e leia um por um, até o último.