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3 Serpentes

Campeonato de microcontos · Autores

@veniciogpsilva

32 microcontos no 11º campeonato, com todas as 11 palavras.

Rodada 1 · Diálogo

— O que você trouxe na mala?
— Apenas o que coube nos seus olhos enquanto eu partia.
— Mas a mala está vazia.
— Exatamente.

Rodada 1 · Diálogo

LOGOS

Os matutinos pedem:
DIA! DIA! DIA!
Os apressados exigem: LOGO! LOGO! LOGO!
Os apressados matutinos não se conformam:
LOGO DIA! LOGO DIA! LOGO DIA!

Sócrates, do seu túmulo, ergue um dedo:
Diálogo! Diálogo! Diálogo!

Rodada 2 · Fotografia

As últimas fotos foram com os olhos.

Rodada 2 · Fotografia

MÁQUINAS DO TEMPO POSSÍVEIS

No digital, a rua está vazia. Mas no zoom máximo da janela, ainda aceno para 2019. Sou uma estrela: o tempo não serve a relógios de luxo, mas ao sopro que cria e descria o universo para nos manter — ou apagar — da luz do que é visível.

Rodada 2 · Fotografia

MÁQUINAS DO TEMPO POSSÍVEIS: A FÍSICA DA FILOSOFIA.
Furei o papel: o mundo entrou de cabeça para baixo. Na parede, carros voavam e pessoas caminhavam no céu, como se Deus virasse a ampulheta para ver o que restava de nós. O chão, pois, é a ilusão de quem ainda não aprendeu a cair para cima.

Rodada 3 · Bolso

O que caiu pelo buraco da calça agora governa um reino de formigas.

Rodada 3 · Bolso

A ASSEMBLEIA

Os ratos celebraram quando o homem partiu para o rugido dos canhões. Declararam a cozinha República. O Cão, no entanto, não os caçou. Estava ocupado demais guardando a fresta do pano, por onde a mão do homem vazava para confirmar que o mundo era bom.

Rodada 3 · Bolso

TRAIDOR SANTIFICADO

Não tinha bolsos. O diabo, então, resolveu morar na bainha.

Rodada 4 · Banda

O LADO B DA BANDA

Fazia parte de uma banda que cantarolava coisas de amor. Foi quando, por um descuido, vi aquela senhorita de rosto estritamente para rádio se borbulhar na janela. Enfim, entendi por que o mestre Chico escreveu que a banda passou... e não que resolveu ficar.

Rodada 4 · Banda

O piano guardava oitenta e oito dentes de marfim, rindo de nossas dores em dó maior.

Rodada 4 · Banda

A rádio toca a mesma música dez vezes ao dia. A tortura moderna tem um refrão viciante.

Rodada 5 · Ficção

Os alienígenas desceram na Terra e ignoraram os humanos. Foram direto conversar com as geladeiras, pois eram as únicas que sabiam manter a calma e guardar o essencial em um planeta que fervia.

Rodada 5 · Ficção

ZONA DE CONFORTO

O governo deu a todos o que queriam, mas retirou o desejo; o mundo tornou-se um necrotério de gente satisfeita.

Rodada 5 · Ficção

PROJETO EUROPA

Construíram o paraíso com muros tão altos que os anjos, do lado de fora, morriam de frio tentando provar que eram santos.

Rodada 6 · Cobre

A DIETA DO MUNDO

O Estado decretou que a fome era apenas uma questão de perspectiva. No banquete oficial, serviram pratos vazios, mas polidos com tal esmero que os convidados morreram de inanição admirando o próprio reflexo na porcelana.

Rodada 6 · Cobre

EFICIÊNCIA

Para economizar espaço nos cemitérios, a cidade decidiu enterrar apenas os sonhos dos cidadãos. O solo tornou-se tão fértil e instável que as árvores começaram a dar frutos com gosto de arrependimento, e ninguém mais ousou caminhar sobre a grama.

Rodada 6 · Cobre

TAXA DE VIDA: O governo instituiu um imposto sobre o batimento cardíaco. Os pobres, para economizar, aprenderam a técnica do desmaio prolongado. Os ricos, em contrapartida, pagavam fortunas para ter taquicardias recreativas durante o jantar.

Rodada 7 · Melancia

Queria ser notado, então colocou uma melancia na cabeça. Ninguém viu o seu rosto, mas todos comentaram o brilho da casca.

Rodada 7 · Melancia

Tinha gosto de melancia, mas a textura era de carne. Ele continuou mastigando, pois sabia que, se parasse, ela abriria os olhos.

Rodada 7 · Melancia

Limpou o sangue com a polpa, engoliu as evidências pretas e jogou a casca no lixo.

Rodada 8 · Ano

INSÔNIA

Às três, ouço almas. Do lado, vovó dorme. Quanto mais o tempo passa, menos a vejo sonhar.

Rodada 8 · Ano

EPITÁFIO

Morreu de hipóteses, deixando para os vermes o banquete das chances desperdiçadas.

Rodada 8 · Ano

Quando ele finalmente aprendeu as respostas, o tempo mudou todas as perguntas.

Rodada 9 · Toa

O alívio súbito nos ombros foi o som mais triste que o mar já produziu: você havia soltado a ponta.

Rodada 9 · Toa

A toa só faz sentido enquanto houver dois; agora que você partiu, o cabo é apenas uma corda esperando pelo meu pescoço.

Rodada 9 · Toa

O nosso amor foi um erro de náutica: você queria um porto para ficar à toa, e eu só tinha uma toa para te salvar do porto.

Rodada 10 · Umbigo

Narciso Prático

Inclinava-se todos os dias para contemplar seu próprio centro.
Saiu dali convencido de que o universo precisava melhorar.

Rodada 10 · Umbigo

Parto

Nasci rompendo alguém.
Desde então, carrego no centro
a culpa de ter começado.

Rodada 10 · Umbigo

Economia do Amor

Meu primeiro investimento
foi depender.

Rodada 11 · Moeda

O VOO DA NOTA DE DEZ

A Arara-real não quer mais o céu; prefere o vento do ventilador do caixa. Lá, ela bate as asas de papel e descobre que a liberdade custa exatamente o preço de uma gaiola.

Rodada 11 · Moeda

FAUNA DE BALCÃO

O tráfico é legalizado quando o bicho sai do bolso direto para a boca do caixa.

Rodada 11 · Moeda

TAXIDERMIA SOCIAL

Há um grito de floresta morta na carteira. Estampam a fauna no Real para tocar o selvagem com os dedos, mas a liberdade é um brilho celulósico. O senhor do bolso é a presa: bicho acuado trocando a alma por um mico que não respira.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.

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