Rodada 1 · Diálogo
No princípio era o verbo…
O barulho era demais.
Muitas mesas entre eles.
Mas, os olhares se encontravam.
Às vezes, risonhos.
Então, um gesto exagerado para o garçom.
Pediu licença ao se levantar.
Enfim, a brisa.
E os passos que se aproximavam confirmando a comunicação estabelecida.
Rodada 1 · Diálogo
Um dia, logo…
— Quando podemos conversar?
— Um dia.
— Pode falar?
— Logo…
— Quando resolveremos isso?
— Um dia.
— Precisamos discutir a questão .
— Logo…
E com os “dias” e “logos” ela foi entendendo a resposta dele, que ainda se disse surpreso quando ela partiu.
Rodada 2 · Fotografia
Memória
— Florença!
— Flórida!
— Finlândia!
— França!
— Fotografia…
— Não, vó! É lugar!
— Todo mundo pontua, menos a vovó. Próxima rodada…
— Qual letra agora?
Sereno, o olhar de dona Ema encontra a si mesma e o marido na parede após o corredor.
— Logo! — balbucia entre a gritaria das crianças.
Rodada 2 · Fotografia
Desde o match, a química bateu, a conversa fluiu em texto, áudio e ligações.
As vivências e lugares da infância eram iguais.
A última etapa: as fotos.
Ele já tinha liberado a sua, era só ela clicar e ambos veriam ao mesmo tempo.
Ao ver, olhou na porta da geladeira.
Era ela, a irmã sumida há 12 anos.
Rodada 4 · Banda
Dispersão
E cada qual no seu canto e em cada canto uma dor.
Homem sério, faroleiro, namorada, moça triste, velho fraco e moça feia culpavam uns aos outros pela saída da banda.
“Seja simpático, homem!“,
“Você só conta vantagens!“,
“Que tal sorrir um pouco?”,
“Ficasse em casa!“,
“Use um pó na cara!“
Rodada 4 · Banda
Solene
Quando soube da partida do velho Maestro, não mediu esforços para estar presente na despedida.
O encontro inicial aconteceu há uma década, ele tocava bateria invisível, os irmãos, também presentes, guitarra imaginária e baixo fantasma.
Maestro ganhou esse nome pela forma como mexia o rabinho.
Rodada 10 · Umbigo
Anatomia musical
Filho de músicos, desde cedo ouvia sobre as partes dos instrumentos: o corpo, a mão, o braço, as pestanas.
Quando perguntado sobre a diferença entre o violão e a guitarra, cravou: “o umbigo!”
Rodada 10 · Umbigo
Translação
O relacionamento não progredia. Edu sentia como se estivessem andando em círculos.
Hoje, percebe que, na verdade, ele orbitava o umbigo de Raquel.
Rodada 10 · Umbigo
Roda dos enjeitados
Isa sentia inveja até mesmo das memórias ruins que as outras crianças contavam. Lembranças, saudades, história. Ela não tinha nada que pudesse relacionar à mãe. Exceto a primeira e única cicatriz: o umbigo.
Rodada 11 · Moeda
Uma moeda ou um colonialismo misterioso?
O índio perplexo com a proposta de trocar tudo que caçou ao longo do dia por um minúsculo disco de ferro, gentil, aceitou, afinal o cara pálida prometia estar de passagem.
Rodada 11 · Moeda
— Eles pegam um metal qualquer, amassam, marcam e aquilo passa a valer um Gorlon. Eu levei décadas pra juntar tudo que tenho e aposto que não vale nem um quarto de Gorlon. Mas os poderosos querem me convencer que o seu metal marcado vale mais.
Um balido de ovelha pareceu concordar com o louco.
Rodada 11 · Moeda
Far$a
Foi convencionado acreditar que uma moeda tinha um valor maior que o seu conteúdo. Que papéis de diferentes cores valiam mais do que a soma dos materiais usados em sua produção.
A palavra do rico passou a ter mais força, logo, a cor da pele teve valor diferente.
Essa farsa nunca nos deixou.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.