Rodada 1 · Diálogo
Diálogos tangentes
Borbulham na boca, fazendo cócegas na língua, os dentes cerrados impedem a saída. Fogem para mente, desorganizadas, correm de um ouvido ao outro, dizendo coisas tão baixinhas, acolhidas num caderno surrado de um doutor desinteressado.
Rodada 2 · Fotografia
As beiradas da imagem iam sumindo, corroídas pelo bicho de asas traiçoeiro: o tempo.
Rodada 3 · Bolso
Pelo caminho foi buscando as pedras mais bonitas, examinava cor, tamanho e peso. Umas descartava, outras ia guardando enchendo os bolsos. Contavam essa lenda, debaixo da ponte aquelas pedras descansavam no leito do rio.
Rodada 3 · Bolso
A aliança percorreu o trajeto até o fundo do bolso roto, caiu na rua tilintando, arrastando para o bueiro as bodas de papelão.
Rodada 3 · Bolso
Tomou o lenço e soluçou como um bicho ferido, até compadecer o amante. Tolo, cedeu às lamúrias, e, despercebido, guardou no bolso a prova seca do cinismo dela.
Rodada 5 · Ficção
Crime Literário
O papel em branco, eu de caneta na mão, ameacei deitar as palavras pra fora, elas resistiam. Escrevi meia dúzia e desisti, parecia um crime. A polícia invadiu meu apartamento, me rendi sem pestanejar. Apontei para o caderno e confessei: matei a literatura, eis aqui as evidências.
Rodada 5 · Ficção
A férinha
Era boa, mas ia um que revirando as entranhas, subindo calafrios. O pastor disse que era o diabo obrando. Imaginou o micro capeta dentro do estômago. No meio do culto, sentiu-se mal, que criatura terrível sairia dali? Não refreou e vomitou. Aglomeram para ver, um lindo filhote de gatinho.
Rodada 6 · Cobre
O ar solto longo e profundo cobre distâncias, cruza oceanos, encontra deuses de muitos braços, deusas com línguas de fora, flores e incensos perfumados. Mas em menos de dez minutos, com um estalar de dedos da instrutora, todos retornam às suas casas satisfeitos, a tempo de jantar um animal sagrado.
Rodada 10 · Umbigo
À mulher atribuem o pecado original, uma história saída diretamente do umbigo de Adão.
Rodada 11 · Moeda
O trovão rasgou o ar, o homem entrou sem pedir licença. Ela brincava com a boneca no chão, desviou o olhar para a mão estendida de seu algoz, não aceitou o destino, mas ele a carregou mesmo assim. Quando a porta fechou, do lado de fora, ainda pôde ouvir o tilintar no bolso da vovó.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.