Rodada 1 · Diálogo
Palavra e moda
A blusa conversava com aquela calça, que conversava com aquele chapéu, que conversava com os sapatos. O traje era um diálogo perfeito que falava muito sobre uma pessoa que, por dentro, não tinha nada de especial a dizer.
Rodada 1 · Diálogo
Meio-termo
— Acredito que estas pessoas aqui deveriam morrer por conta de como são. — disse o primeiro.
— Acredito que pessoas não deveriam morrer por conta de como são. — disse o segundo.
— Vocês não podem chegar a um meio-termo? Quem sabe apenas algumas pessoas poderiam morrer! — disse o terceiro.
Rodada 1 · Diálogo
Mesa de bar
De tanto concordar que todas as vozes mereciam ser ouvidas igualmente, acabou em uma mesa onde todos os outros achavam que deveria morrer.
Rodada 2 · Fotografia
OLHAR
O fotógrafo um dia mostrou como era belo o raio de sol que incidia de manhã pela janela do escritório.
O tempo passou, as estações mudaram o sol, depois levaram o fotógrafo.
No ano seguinte, o raio de sol voltou, foi reconhecido. O fotógrafo não estava mais lá, mas seu olhar continuava presente.
Rodada 3 · Bolso
O GÊNERO DAS ROUPAS
A calça não tinha bolsos, os shorts não tinham bolsos, os vestidos não tinham bolsos, e por alguma razão queriam convencê-la de que isso fazia sentido porque era mulher.
Rodada 3 · Bolso
BURACOS
Encontrou por acaso um buraco no bolso, colocou-o no chão, pulou dentro e nunca mais foi visto.
Rodada 3 · Bolso
PREJUÍZO
Todos sofreram com a desgraça, mas a dor no bolso só não era maior do que a dor de quem sequer tinha bolso.
Rodada 3 · Bolso
A VIDA TODA CABIA EM UM BOLSO
Tentou se convencer que era de alta densidade, de alta concentração, mas era realmente baixa quantidade.
Rodada 3 · Bolso
MÃOS NOS BOLSOS
Mãos nos bolsos não falava com ninguém, nem queria ser visto, nem queria troca, acordo ou negócio. Ninguém o viu quando sumiu, nem o reconheceu quando voltou, tempos depois, porque as mãos agora estavam sobre mesas, sobre costas, apertando outras mãos e apontando para o mundo.
Rodada 4 · Banda
A banda de Teseu
Os anos se passavam, e conforme seguiam na ativa, trocaram o guitarrista, depois o baixista, depois o baterista, depois o vocal. Restaram o nome, as músicas e a gravadora da banda antiga. Ninguém sabia com certeza se isso fazia com que realmente fossem eles.
Rodada 4 · Banda
Não há banda
Ouvia música de mentira, com compositores e músicos de mentira, feita para um público de mentira, que substituía o espaço do que era de verdade, depois de canibalizá-lo e vestir seu rosto.
Rodada 5 · Ficção
DOIS MUNDOS
Havia o mundo, e havia o outro. Em um vivia, no outro, também. O que fazia no primeiro não afetava o segundo, e o que fazia no segundo transformava o primeiro, mesmo que sem contato direto.
Ao fim de cada página, sempre sorria: ainda bem que existia a ficção.
Rodada 5 · Ficção
NADA É VERDADEIRO, TUDO É PERMITIDO
Quando entendeu que ninguém jamais veria o mundo por completo, atingiu um tipo de iluminação: seria a história que contava a si mesmo.
Rodada 5 · Ficção
F(R)ICÇÃO
— Eu e ela não brigamos. Isso que espalharam por aí é ficção.
— Fricção?
— Ficção. Quero dizer que era de mentirinha.
— Então quer dizer que a fricção foi uma ficção?
Apesar do trocadilho, fazia sentido.
Rodada 6 · Cobre
Vida e vida
A condução elétrica da antena de cobre injetou vida no cadáver costurado. O monstro se ergueu, viveu, aprendeu, mas nunca entendeu por que a humanidade desanimada não buscava mais vida com as belezas do cobre e da eletricidade.
Rodada 6 · Cobre
A cor do cobre
Não via valor nas tantas medalhas de terceiro lugar. Uma vida inteira de quase-vitórias, de quase-fama, de quase-sucesso. No primeiro ouro, depois de toda alegria, encheu-se de vazio. Viu então o terceiro colocado exultante com e percebeu sua derrota existencial.
Rodada 6 · Cobre
Símbolo
“Vá tomar no cobre!”, dizia o químico para seus desafetos.
Rodada 7 · Melancia
MELANCIA
Quando Mariazinha explicou para a professora que tinha uma semente crescendo em sua barriga, ela achou melhor envolver a polícia.
Rodada 7 · Melancia
MELANCIA NÃO DÁ EM ÁRVORE
Ninguém acreditou que não havia sido uma agressão.
Rodada 7 · Melancia
UMA FATIA DE BALÃO
O susto e os pedaços no chão foram tudo que restaram depois da teoria frustrada do menino: não era como a melancia.
Rodada 8 · Ano
SABÁTICO
Queria tirar um ano sabático. Não ter responsabilidades, nem preocupações. Quando finalmente conseguiu, se deu conta de que o mundo não tiraria férias com ele.
Rodada 8 · Ano
DATA DE NASCIMENTO
— Vô, é verdade que você não sabe direito em que ano nasceu?
— É verdade, naquela época a gente ainda não tinha inventado o calendário.
O menino ficou em dúvida, mas acabou por aceitar. O avô sabia que isso era mais fácil e divertido do que a verdade da pobreza e burocracia.
Rodada 8 · Ano
DATA FINAL
Pensou que em 2000 o mundo acabaria. Quando a vida seguiu, mudou a data para 2012. Quando não deu certo, procurou mais anos apocalípticos. O ano de sua morte chegou antes do fim de todo.
Rodada 8 · Ano
CORRIDA/OBITUÁRIO
Todos os nomes na lista ficaram para trás conforme o ano passou.
Rodada 9 · Toa
CONTRÁRIO
Ficou à toa na vida e ocupado na morte.
Rodada 9 · Toa
RITMO
À toa na toada, não tocou o instrumento que esperavam na hora certa.
Rodada 9 · Toa
TOA
Passou a vida sendo rebocado, alcançando novos portos e mares sempre ao custo do esforço alheio. Quando se viu só em alto-mar, descobriu que não tinha velas, tampouco combustível. Estava à deriva.
Rodada 10 · Umbigo
HUMANIDADE
Comia, cagava e tinha um umbigo igual todo mundo. O resto eram os detalhes da biografia.
Rodada 10 · Umbigo
IMBIGO
— Tá errado, não é assim que se fala.
— Mas soa muito melhor, assim.
Rodada 10 · Umbigo
NÚCLEO
Achava que tinha o rei na barriga, mas, olhando de perto, carregava só um umbigo sujo.
Rodada 11 · Moeda
TAXA
Caronte recusou a travessia: não aceitava Bitcoin.
Rodada 11 · Moeda
INJUSTIÇA
Retribuiu na mesma moeda, mas vindo de sua mão julgaram como excesso. O problema, entendeu, não era o pagamento, mas o pagador.
Rodada 11 · Moeda
CUNHAGEM
Enterrado com dobrões de ouro sobre os olhos, foi parar no mesmo lugar que o outro com centavos de cobre azinabrado.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.