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3 Serpentes

Campeonato de microcontos · Autores

@rodrigodomit

26 microcontos no 11º campeonato, com todas as 11 palavras.

Rodada 1 · Diálogo

INCAPACIDADE

Eram feitos um para o outro.
Ela muda. Ele cego.
Ela muda. Ele surdo.
Cansada de mudar sem ser vista ou ouvida, ela fez um enorme discurso de despedida.
Ele mudo.

Rodada 1 · Diálogo

INTERVALO

Ele esbravejava, ela gritava. Xingamentos e ameaças. No final das contas, só havia razão nos silêncios entrecortados.

Rodada 1 · Diálogo

INSUSTENTÁVEL

Naqueles tempos, cada um carregava nas costas suas próprias verdades, num emaranhado tão denso que pendiam sempre para algum lado. Mal se aproximavam dos outros, por receio de enroscar-se nas verdades alheias.

Rodada 2 · Fotografia

REVELAÇÃO

Vovó dizia: essa máquina rouba almas. Mas não pensamos que também devolvia: fotografei-a no sofá da sala. Vovô apareceu ao lado, sorrindo.

Rodada 3 · Bolso

POLIA

As mãos no bolso eram um cordão tenso que sustentava as costas arqueadas e o corpo surrado. Havia suportado muitas coisas, perdido tantas outras. Ali, ele segurava a si mesmo. Agarrando-se à realidade, tentava não se perder novamente.

Rodada 3 · Bolso

REVISTA

— Que é que tá carregando aí?
— Só um isqueiro.
— Vai fumar o quê?
— Não fumo nada não, senhor. Vou só no cemitério acender vela pros parentes.
— E cadê as velas?
A mentira chegou ao limite. Percebeu que não tinha mais saída, já estava no bolso do guarda.

Rodada 3 · Bolso

PESO

No museu, ela se perguntou para que serviam os buracos nas roupas.
Um holograma explicou: carregar objetos para abrir portas, transações comerciais, comunicação e memórias.
Ela franziu o cenho. Aquilo devia pesar. Seu chip resolvia tudo sozinho.
Saiu dali carregando uma angústia.

Rodada 4 · Banda

A ÚLTIMA MARCHA

Ordenaram que a banda tocasse para levantar o moral. Tocaram até os dedos congelarem, até as trompas emperrarem, a pele dos tambores rachar e os pratos quebrarem como gelo.
Nas noites de inverno, ainda ecoa a banda do grand armée, guiando os espíritos dos soldados desconhecidos.

Rodada 4 · Banda

A BANDA QUE NÃO PASSA

Foram acaloradas as discussões pela escolha do maestro. Apesar disso, mantiveram os mesmos instrumentistas de sempre: desafinados, sem sincronia ou ritmo.
No final, não importa qual o maestro: é assim que essa banda toca. E o ingresso está cada vez mais caro!

Rodada 5 · Ficção

Quase mata nois de ansiedade! 😂

Rodada 5 · Ficção

PERSONAGEM

Escreveu grandes dramas, vidas sofridas, verdades profundas. Ninguém leu.
Depois do acidente, ganhou milhões de seguidores. Perguntavam da perna, da dor, da cicatriz. Dos livros, nunca.

Rodada 5 · Ficção

ENREDOS

Aquela pequena mentira cresceu e virou conto de fadas. Por algum tempo, era tudo romance. Mas a situação foi ficando crônica. Quando a verdade apareceu, tudo se encerrou em drama.

Rodada 6 · Cobre

CARREGADOS

Rodaram a cidade animados, bebendo e roubando fiação de casas em construção. A cada butim, ficavam mais empolgados. Até o último. Ficaram eletrizados.

Rodada 6 · Cobre

NÁUSEAS

A grande estátua de cobre, cor de terra banhada de sangue, representava a liberdade.
Com o passar das décadas, exposta ao clima e às intempéries, ficou verde. Enjoada.

Rodada 6 · Cobre

O furacão passou. Da casa, restou apenas o esqueleto de cobre, canos frios entranhados no chão. Remexeram os escombros. Não acharam ninguém.
Até que ouviram o encanamento tilintar. O porão ainda guardava vida.

Rodada 7 · Melancia

IMPROVISO

Já era final de outubro, não havia abóboras boas. Quando perguntaram da melancia entalhada, disse que dava uma cara mais raiz.

Rodada 7 · Melancia

MELANCIAS

— São verdes por fora, mas vermelhos por dentro — o general explicava aos soldados.
Ensinava-os a descascar e abrir as frutas podres, que contaminariam todo o cesto.
Muito eficientes, os aprendizes não erravam uma: todas vertiam sumo vermelho.

Rodada 8 · Ano

INFLAÇÃO

Nasceu devendo trinta anos. Quando estava prestes a quitar, já devia mais cinco, com juros.
O filho nasceu devendo quarenta.
O neto talvez retomasse o ciclo antigo: de nascer já devendo a vida toda.

Rodada 8 · Ano

RITOS

A cada ano, apagava uma vela.
Desta vez, porém, seria velado.

Rodada 8 · Ano

TROLL

Estava descobrindo as novas tecnologias. A onda do momento era dizer o ano em que nasceu sem dizer o ano em que nasceu.
Diante da tela, sem refletir, ele escreveu: "Marduk partiu ao meio Tiamat".
Alguém comentou que era um troll querendo atenção.
Ele riu; não havia mais desses há milênios.

Rodada 9 · Toa

REVELAÇÃO

Diziam que Dona Celeste vivia à toa. Fazia pouco, comia pouco, bebia pouco.
Quando morreu, e cessaram os pagamentos da aposentadoria, foi que notaram que era ela quem carregava a família à reboque.

Rodada 9 · Toa

ARTE

No oitavo dia, distraído, meio à toa, criou o dente-de-leão.
Até pensou em alterar alguns detalhes, mas, depois que assoprou, já não tinha como voltar atrás.

Rodada 10 · Umbigo

CRIATURA

Olhou por tanto tempo para o próprio umbigo que, um dia, lá de dentro, algo olhou de volta. Olhos famintos.

Rodada 10 · Umbigo

TOQUE

A mão curiosa deslizou por baixo do vestido. Pele quente, lisa.
Parou. Apalpou. Passou a mão de novo.
— Esperava outra coisa? — ela perguntou.
Ele seguiu em silêncio.
— Eu ainda posso atender os seus desejos?
Ele não respondeu. Tudo que ele queria era calor humano; e ela não tinha umbigo.

Rodada 11 · Moeda

MARGEM

Acostumado a ignorar os pedintes e desesperados, negou moedas para Caronte. O barco partiu sem ele.
Na margem desolada, passará a eternidade pedindo ajuda aos passantes.

Rodada 11 · Moeda

A QUEDA

O povo ofereceu ao rei uma chance. Cara, perdoado. Coroa, guilhotina.
Ele sorriu, desacreditado; e lançou a moeda ao ar.
O metal caiu num instante. Após rolar no chão, o rosto ficou virado para cima. Ainda sorria.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.

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