Rodada 3 · Bolso
IMPERMANÊNCIA
O casal costumava contemplar o pôr do sol no Parque Tanguá. Os tons avermelhados e violáceos, mudando a cada segundo, geravam algo mágico; mas, para ele, a sensação de eternidade surgia quando ela colocava a mão no bolso de trás de sua calça jeans.
Rodada 3 · Bolso
MATERNIDADE NOS ANOS SETENTA
— Nasceu, seu Élio! É menino, parabéns! — anunciou a freira na porta do centro cirúrgico. Com a euforia das boas novas, o jovem pai colocou o cigarro aceso no bolso do paletó.
Rodada 3 · Bolso
INADIMPLENTE
O menino morreu na quebrada. Bala perdida. A moeda no bolso seria o dízimo da mãe. Deus lamenta.
Rodada 4 · Banda
Ah, a hospitalidade manauara! Sexta-feira, o consultor curitibano – todo sério e engomadinho – tentou em vão se despedir dos clientes. Foi praticamente arrastado para uma festa de família em Manacapuru, onde, pela primeira vez, rendeu-se a uma banda de tambaqui. Voltou feliz para o frio do Sul.
Rodada 5 · Ficção
TRINTA
No máximo trinta dias. Prognóstico médico. Em coma, vivia num mundo idílico.
Rodada 5 · Ficção
FICÇÃO
Não podia aceitar sua ausência. Programou a IA com todos os dados disponíveis de voz, vídeos e texto. Ela interagia perfeitamente como se não tivesse morrido.
Rodada 5 · Ficção
K
Lia Kafka e se via envolto numa atmosfera onírica Nos corredores do hospital, esperava encontrar jovens moças pervertidas. Nas ruas as águas-furtadas lhe chamavam a atenção. Duvidava da realidade.
Rodada 6 · Cobre
RISCO
Os longos e grossos eram os melhores. Sua obtenção envolvia riscos elevados, embora o preço compensasse. Era por isso que o pequeno Luis não parava de roubar cabos de cobre.
Rodada 6 · Cobre
TRILHO
Quando criança, Luis brincava nos trilhos da RFFSA próximos da Estação de Uvaranas. Cortava e desencapava pequenos segmentos de cabos elétricos e os deixava sobre os trilhos para que o trem passasse por cima. No dia seguinte vendia na escola as pulseirinhas de cobre.
Rodada 6 · Cobre
ANCESTRALIDADE
A descoberta do Cobre marcou a entrada da humanidade na era dos metais. Maleável e dúctil, era usado na confecção de copos e ornamentos.
O pequeno Luis, vendedor de pulseirinhas e ladrão de cabos, jamais imaginaria o trabalho de seus arquiancestrais.
Rodada 7 · Melancia
CINCO
— Boa tarde, Seu Chico! É esse o preço mesmo? — perguntou o piá, cabreiro.
— É um real mesmo. Deu muito.
Luis tirou cincão do bolso.
— Me dá cinco.
— Vai levar como? — perguntou Seu Chico com ar de riso.
— Ô piazada, festa da melancia! — gritou para os quatro amigos do outro lado da rua.
Rodada 7 · Melancia
MELANCIA
A inexorabilidade da entropia foi provada por Boltzmann quando o fruto do Citrullus lanatus restou esfacelado sobre o piso do laboratório.
Rodada 8 · Ano
ÁTIMO
A adrenalina, o coração disparado, a venda nos olhos e, diante deles…
a vida toda;
o último ano;
o último mês;
o último dia;
última hora;
último minuto.
Sorriu, um átimo antes da abertura do cadafalso.
Rodada 8 · Ano
TEMPO
Desde os trinta, Luis preocupa-se em demasia com a passagem do tempo. Ano após ano, as primeiras rugas, os primeiros cabelos brancos e a primeira brochada, soaram como um alerta dessa passagem. Considerava os calendários como relógios muito lentos. Eles mostram, com sua lerdeza, a inexorabilidade da sua própria finitude.
Rodada 9 · Toa
2150
O raio gravitacional era utilizado para posicionar as naves nas docas da estação espacial na órbita de Titã. O velho, operador do equipamento, contava que seu bisavô fora prático no Porto de Paranaguá e insistia em chamar a ferramenta tecnológica de “toa”.
Rodada 9 · Toa
A ESMO
Costumava sair sem destino, entregue ao acaso, no centro de Curitiba: Rua XV, Boca Maldita, Tiradentes, Largo da Ordem, São Francisco, Saldanha Marinho, Bar Triângulo, Biblioteca Pública, Armazém Califórnia, Bar Folia, Gato Preto. Não havia nada melhor do que flanar.
Rodada 9 · Toa
DE VARDE
Jeanne, baiana arretada, ficava muito irritada com os regionalismos do marido curitibano.
– Tá fazendo o que, meu filho?
– Tô de varde, amor.
– Sabe nem falar! É um à toa mesmo!
Rodada 10 · Umbigo
A manobra de catapulta gravitacional em Júpiter ocorrera há cem anos. Os bancos embrionários, com umbigos biossintéticos, eram mantidos em animação suspensa e, agora, cuidados pela quinta geração de tripulantes. Sem a perspectiva de outro planeta viável, vagavam no silêncio e na solidão interestelar.
Rodada 10 · Umbigo
Eulália teve três filhos e uma hérnia. As cesáreas, até meados dos anos oitenta, eram feitas pela técnica umbilicopúbica — exatamente o período em que teve seus filhos. A hérnia foi consequência disso.
— Devolvam meu umbigo! — costumava dizer sempre que queria ir à praia.
Rodada 10 · Umbigo
BUSSUNDA
Moisés tinha uma hérnia umbilical. Uma coisa horrorosa! Seu sonho era ser como o Bussunda, que guardava cinco moedas de um real no umbigo.
Rodada 11 · Moeda
Pela manhã e à noite, Dante fazia a pequena travessia na balsa que liga a Ilha da Gigoia ao restante do Rio: religiosamente, a moeda depositada na mão esquerda de Caronte.
Rodada 11 · Moeda
RIMBAUD À BRASILEIRA
Na quebrada, um moleque morreu de bala perdida. No bolso, a moeda da viúva pobre, que sua mãe daria como dízimo. No céu, Deus lamenta.
Rodada 11 · Moeda
CENTAVO
Tinha quarenta e um anos quando pediu demissão e decidiu abrir a própria empresa. No fim do último dia de aviso, já na rua, viu o lampejo de um centavo na sarjeta. Um sinal: seria o próximo Tio Patinhas.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.