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3 Serpentes

Campeonato de microcontos · Autores

@marinahadlich

21 microcontos no 11º campeonato, com 8 das 11 palavras.

Rodada 1 · Diálogo

Pediu para dar a mamadeira.
Falou para tirar o lixo.
Implorou para não deixar a toalha na cama.
O monólogo feminino recorrente.

Rodada 1 · Diálogo

Gritou que tinha direito de andar à noite.
Berrou que sua saia podia ser curta.
Bradou um não bem claro.
Monólogo. Sua voz silenciada.
Com homem sem respeito nunca teve diálogo.

Rodada 1 · Diálogo

Escritora

Nasceu prematura para a arte.
Amarraram seus braços.
Levaram seus lápis, seus cadernos.
Mas não podiam lhe tirar as vozes.
Continuava conversando com seus personagens.
Depois da morte publicaram seus livros.
Uma gênia, diziam.

Rodada 3 · Bolso

Ele tirava do bolso e colocava na minha mão mandando fechar bem forte. Todos os dias minha mãe ficava feliz de ver meu avô trazendo algo para mim. Mas nunca tinha nada. Eu fingia para deixar mamãe pensar que sim. Vovô vinha até nossa casa pra fazer as refeições. Dávamos as mãos para agradecer o alimento. Era eu devolvendo um porquinho do amor.

Rodada 3 · Bolso

Guardou o lenço no bolso. Não era um navio partindo para abanar, era o caixão de sua esposa.

Rodada 3 · Bolso

Duas moedas no bolso. Uma para tentar a sorte e outra para pagar o coveiro.

Rodada 5 · Ficção

Romance

Fechou o livro e viu o pai esfaquear a mãe. Queria fechar o livro de novo e acreditar que fosse só ficção.

Rodada 5 · Ficção

Beijou a página do livro, riram dela. Decidiu escrever seu próprio romance. Agora todos querem beijá-la.

Rodada 5 · Ficção

Guimarães Rosa disse que é nas horinhas de descuido que se encontra a felicidade. Eu me descuidei escrevendo ficção. A realidade que ficasse com os segundos de cuidado.

Rodada 6 · Cobre

Cobre com o jornal de ontem o morto de hoje. Agora são duas notícias com mancha de sangue.

Rodada 6 · Cobre

Lâmpada dos desejos:
Esfrega a barriga com a mão para ver se o feto volta a crescer.

Rodada 6 · Cobre

Esportista desde criança desejava ouro, aceitava prata, não ganhava nem bronze. Desiludido, perdeu o rumo e morreu roubando fio de cobre.

Rodada 7 · Melancia

Não tinha comida. Usou as moedas para comprar sementes de melancia, porque a fruta inteira não conseguia pagar. Plantou, esperou, tinha pelo menos água da fruta.

Rodada 7 · Melancia

Colocou a melancia na cabeça como falaram. Subiu no poste. Morreu eletrocutado. Todos queriam ver o corpo, teve velório cheio. Velado realizado.

Rodada 7 · Melancia

Grávida teve desejo de melancia, o pai não encontrou a fruta, trouxe jaca. Nasceu a criança oposto do pai, mas a cara do verdureiro.

Rodada 8 · Ano

Dia das mães

Não chegou a comemorar naquele ano. A barriga doeu.

Rodada 8 · Ano

Feliz ano velho

Do que adianta o ano novo se o calendário é velho, o relógio anda rápido demais e não se tem mais festa com olho no olho. Gostava mesmo era do ano antigo onde a música era arranhada, o tempo dava tempo de comer sem pressa e a gente conversava sem se distrair por um bip.

Rodada 9 · Toa

Esperar sentado morre afogado.
Preferiu deixar seu barco ser levado pela toa amarrado à outra embarcação. Ficando à toa, nunca guiou o leme, tampouco chegou ao mar.

Rodada 9 · Toa

- Essa mulher está fazendo escarcéu à toa - disse o marido ao delegado justificando “apenas” um olho roxo.

Rodada 9 · Toa

À toa embaixo da árvore, sonhado com uma salada de frutas, ganhou um galo numa queda livre e cantou uma lei.

Rodada 10 · Umbigo

Um bigo, dois bigo, teis bigo.
Não, disseram que a mamãe não tem mais de um umbigo, é furo de bala.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.

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