Rodada 1 · Diálogo
— Precisamos conversar — disse ela.
Ele assentiu, aliviado: finalmente ouviria a voz da esposa.
Fazia três anos que o espírito dela só aparecia para escrever bilhetes.
Campeonato de microcontos · Autores
23 microcontos no 11º campeonato, com 8 das 11 palavras.
Rodada 1 · Diálogo
— Precisamos conversar — disse ela.
Ele assentiu, aliviado: finalmente ouviria a voz da esposa.
Fazia três anos que o espírito dela só aparecia para escrever bilhetes.
Rodada 1 · Diálogo
— Você me ama? — perguntou.
— Amo — respondeu ele.
Mas, como sempre, falavam em idiomas diferentes:
ela escutava promessas, ele dizia apenas medo de ficar sozinho.
Rodada 1 · Diálogo
— Eu não matei ninguém.
— Então quem fez isso? — perguntou o detetive.
O suspeito apontou para o gravador sobre a mesa:
— Ele. Foi o único que me ouviu gritar.
Rodada 2 · Fotografia
Quando ampliou a foto antiga, percebeu algo estranho: todos sorriam para a câmera — menos ele.
No lugar onde deveria estar, havia apenas uma cadeira vazia.
Foi então que entendeu por que ninguém nunca o reconhecia nas reuniões.
Rodada 2 · Fotografia
Ela dizia que a câmera não capturava rostos, mas despedidas.
Por isso fotografava sempre ao entardecer:
a luz era a única coisa que também parecia saber ir embora devagar.
Rodada 2 · Fotografia
Na cena do crime, o perito encontrou apenas uma foto.
Nela, a vítima sorria, abraçada ao assassino —
que ainda não sabia que já estava identificado.
Rodada 3 · Bolso
Ele enfiou a mão no bolso à procura de coragem. Encontrou um botão solto, dois trocados e o bilhete dela: “Volto já.” Faz quinze anos que ele apalpa o mesmo tecido, como se a esperança tivesse forro.
Rodada 3 · Bolso
No julgamento, jurou estar desarmado. Esqueceram de revistar o bolso do paletó. De lá não saiu faca nem revólver — saiu a foto da vítima sorrindo, dobrada exatamente sobre o coração.
Rodada 3 · Bolso
A avó costurava bolsos secretos nos vestidos. “Para guardar o que não cabe na mão”, dizia. Quando morreu, acharam neles sementes, santinhos e um mapa desenhado a lápis — o caminho de volta para casa.
Rodada 4 · Banda
Quando o último integrante morreu, a banda continuou ensaiando no porão. Os vizinhos reclamavam do som, mas não era o volume que assustava — era o silêncio entre uma música e outra, quando dava para ouvir cinco cadeiras rangendo sozinhas.
Rodada 4 · Banda
No show de despedida, tocaram a canção favorita dos fãs. No refrão, a plateia cantou tão alto que ninguém percebeu: o vocalista já não segurava o microfone havia minutos.
Rodada 4 · Banda
O maestro levantou a batuta, e a banda inteira prendeu a respiração. Não por disciplina — mas porque sabiam que, se tocassem errado outra vez, ele voltaria a escolher quem não sairia vivo do ensaio.
Rodada 6 · Cobre
O fio de cobre atravessava a casa como uma veia exposta. Quando a energia caiu, foi ele quem queimou primeiro. O eletricista disse que era sobrecarga; ela sabia que era excesso de silêncio acumulado.
Rodada 6 · Cobre
Enterraram a moeda de cobre no quintal para dar sorte. Anos depois, desenterraram fios, canos, telhados arrancados. Descobriram tarde demais: o metal atrai não só riqueza, mas também quem aprende a farejar promessa.
Rodada 6 · Cobre
No laboratório, disseram que o sangue tinha gosto metálico. Ele sorriu: desde pequeno mastigava moedas de cobre para aprender o preço das coisas. Cresceu achando que valor e ferida eram a mesma palavra.
Rodada 7 · Melancia
Na feira, a menina abraçou a melancia como quem salva o mundo. Quando a abriu, não havia sementes, só espelhos. Sorriu mesmo assim: descobriu que crescer é aprender a devorar o que nos reflete.
Rodada 7 · Melancia
Disseram que ela comia melancias como quem resolve problemas. Magali sabia: cada fatia era um jeito doce de calar a solidão do bairro inteiro.
Rodada 9 · Toa
Esperou por ela à toa, disseram. Mas quem passa horas olhando o mar aprende: não é perda de tempo quando a gente espera a própria coragem chegar na próxima onda.
Rodada 9 · Toa
Chamavam-no de poeta à toa. Só porque falava com árvores e escutava telhados. Um dia a cidade caiu em silêncio — e foi ele quem traduziu o vento.
Rodada 9 · Toa
Pediu desculpas à toa, segundo os outros. Ele sabia que não era culpa dele. Mas algumas culpas precisam de abrigo, e o peito dele sempre foi casa para tempestades alheias.
Rodada 11 · Moeda
Ele lançou a moeda para decidir se partia ou ficava. Caiu em pé, girando sem parar sobre a mesa. Desde então, vive assim: suspenso entre dois futuros que nunca chegam.
Rodada 11 · Moeda
O mendigo recusou a moeda. Disse que preferia palavras. O homem insistiu e a deixou no chão. Horas depois voltou: ela ainda estava lá — mas agora trazia, gravado, o rosto do mendigo.
Rodada 11 · Moeda
No museu do futuro, havia uma única peça em exposição: uma moeda antiga. A placa explicava: “Objeto usado quando pessoas ainda acreditavam que escolhas podiam ser compradas.”
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.
Escolha uma palavra e leia um por um, até o último.