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3 Serpentes

Campeonato de microcontos · Autores

@josecbrandao

27 microcontos no 11º campeonato, com todas as 11 palavras.

Rodada 1 · Diálogo

DIÁLOGO DE SURDOS

Meu pai costumava contar este diálogo. Dois amigos se encontram:
– Vais pescar?
– Vou pescar.
– Ah, pensava que ias pescar.
Costumava repetir. Vai que o ouvinte era surdo (ou não entendia a piada):
– Vais pescar?
– Vou pescar.
– Ah, pensava que ias pescar.

Rodada 1 · Diálogo

A VÓ DO MENINO

– Trabalho à noite, deixo o meu filho em casa. Ele sente a presença da vó. Tem medo.
– Mas ele conheceu a vó?
– Ela morreu há vinte anos; ele tem onze.
– Então é porque fica sozinho naquele casarão?
– A vó fica com ele. Ela nunca iria sair da sua casa. E ele sabe que ela está lá!

Rodada 2 · Fotografia

CONFIDÊNCIA

Mariana é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!

Rodada 2 · Fotografia

FOTOGRAFIA ANTIGA

O meu avô na foto, a minha avó, as minhas tias orgulhosas do nada que têm. O meu pai, a minha mãe olham de lado como quem não se importa. Os meus irmãos sorriem e se despedem. Eu ainda não nasci.

Rodada 3 · Bolso

A MORTA RELUTANTE

Apalpou os bolsos do vestido, achou o pito, remexeu o fumo, bateu o isqueiro. Tudo muito meticulosamente. E chupou, chupou fundo. Morto não pita? Ela se ri: Não pitava!

Rodada 3 · Bolso

A MENDIGA

Ela me estendeu a mão, me olhou com uma lágrima escorrendo na cara suja.
Eu enfiei a mão no bolso, não encontrei nenhum dinheiro. Ela não se importou, segurou a minha mão e disse:
– Estou tão sozinha como se fosse morrer.

Rodada 3 · Bolso

COM A MORTE NO BOLSO

O que é a palavra favela para você? – Família.
O que é a palavra polícia? – Medo.
A palavra negro? – Irmão.
A palavra fome? – Dor.
A palavra amor? – Mulher.
A palavra criança? – Filho.
A palavra Deus? – Salvação.
A palavra governo? – Nada.
A palavra morte? – Eu.

Rodada 4 · Banda

DUAS BANDAS

Sempre moramos em Dois Córregos, mas, quando eu era criança, mudamos para Igaraçu do Tietê. Um amigo, orgulhoso da banda sinfônica da cidade, perguntou a meu pai:
- Tem banda em Igaraçu?
- Tem duas - respondeu meu pai. - Tem a banda de cá e a banda de lá.

Rodada 5 · Ficção

FICÇÃO

A vida é uma ficção. Nem a morte me salva. Quem me garante que a ficção acabou? Quem me sonha, sonha duas vezes o mesmo sonho? Estou vazio de mim.

Rodada 5 · Ficção

SER OU NÃO SER

Ser ou não ser, eis a questão. Questão ou ficção? Nem somos atores na ficção da vida, mas meros coadjuvantes.

Rodada 5 · Ficção

A FICÇÃO DA VIDA

A poesia é ficção, madame. Viver é a arte de dar a outra face.

Rodada 6 · Cobre

O EMPAREDADO

Eu sempre calado
entre estranhos dobres.
Eis-me limitado
por estanho e cobre.
Eis-me emparedado
no meu quarto pobre.
Ainda mais me calo,
por mais que me dobres.
Sempre o mesmo avaro,
por mais que me cobres.

Rodada 6 · Cobre

O NEVOEIRO

O nevoeiro cobre as casas, o nevoeiro cobre os bois e as vacas, até o mugido das vacas e dos bezerros.
O nevoeiro cobre as coisas: árvores, postes, estrada, bicicleta do menino, fios, terra, pedras e dor.
A vida vai devagar, a vida quase nem vai, parada no nevoeiro, a vida suspensa no ar.

Rodada 6 · Cobre

BLOW-UP

Depois daquele beijo, ficou com gosto de cobre na boca.

Rodada 7 · Melancia

CAMPO DE NÉVOA

Apenas as enxadas se erguem e abaixam no campo coberto de névoa. O orvalho cai suave sobre as melancias abertas. Eu suspiro baixinho olhando as flores no alto das árvores. O vento desenha arabescos no capinzal. Florinhas de capim crescem à beira do riacho.

Rodada 8 · Ano

PANDEMIA

Depois daquele ano, nada mais tinha importância.

Rodada 8 · Ano

A VÓ

– Trabalho à noite, deixo o meu filho em casa. Ele sente a presença da vó. Tem medo. Ela era brava.
– Mas ele conheceu a vó?
– Ela morreu há vinte anos; ele tem onze.
– Então é porque fica sozinho naquele casarão?
– A vó fica com ele. Ela nunca iria sair da sua casa. E ele sabe que ela está lá!

Rodada 8 · Ano

ANIVERSÁRIO

¬– Faz um ano o Zezinho morreu, os sapatinhos dele ainda ao pé da cama louquinhos para sair correndo.

Rodada 9 · Toa

A FACA NO OLHO

Faz dois dias que H. está no hospital com uma faca enterrada no olho.
Os médicos não sabem como tirar. Não sei como H. aguenta, nem como é que ele está vivo. Não é à toa que a gente sempre achou que H. era o tal.

Rodada 9 · Toa

O GOVERNADOR

O governador é um filho da puta, disse o padre, e como todo filho da puta vai fazer muitas falcatruas para satisfazer suas ambições. Não é à toa que todos o odeiem e temam. Um dia vai ser ele quem vai morrer e ninguém vai saber nem onde param as suas ossadas.

Rodada 9 · Toa

MEDICINA

Napoleão invadiu a Rússia com 600 mil homens, voltou derrotado com apenas 30 mil.
Podia ser um gênio da guerra, mas não entendia nada de medicina e deixou seus homens morrerem às carradas de tifo.
Não é à toa que Napoleão hoje é um louco de hospício.

Rodada 10 · Umbigo

TRÉGUA

M. carrega no pescoço uma tabuleta onde se lê: “Aluga-se Árvore do Bem e do Mal”.
Todos a olham cobiçosos, mas se afastam com medo da cabeça da cobra verde que se mostra entre os seios, às vezes no umbigo, outras na floresta entre as coxas, ou na maçã vermelha entre os dentes.

Rodada 10 · Umbigo

A BANANEIRA

As palmas da bananeira abanam a tarde. As bananas amarelas como ouro.
A bananeira é a musa do paraíso e canta. Embala o umbigo do mundo.

Rodada 10 · Umbigo

A POESIA?

A poesia é inútil como um brinco no umbigo do ornitorrinco.

Rodada 11 · Moeda

A FLAUTA DESAFINADA

O menino tocava a sua flauta desafinada com uma lágrima embaçando cada olho. Na canequinha junto a seus pés descalços, três minguadas moedas.

Rodada 11 · Moeda

A MOEDA

M. L. caminhava distraído por uma rua, quando encontrou uma moeda. Pena: estava grudada no cimento. Era uma moeda rara, de valor. Uns cem metros à frente encontrou um martelo e um formão. Voltou sobre seus próprios pés, para recuperar a moeda. Mas onde estava ela? Não a encontrou mais.

Rodada 11 · Moeda

UM TONTO

Orestinho, antigo funcionário da Prefeitura, ganhava um conto de réis para capinar o mato entre os paralelepípedos das ruas da cidade. Quanto ganhava? Respondia:
– Um tonto!
Já velhinho, quando ninguém mais sabia o que era um conto de réis, ainda proclamava:
– Um tonto!

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.

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