Rodada 1 · Diálogo
ANESTESIA
A barriga chorava fome. Ouviu o de costume:
— Dorme, que passa.
Campeonato de microcontos · Autores
32 microcontos no 11º campeonato, com todas as 11 palavras.
Rodada 1 · Diálogo
A barriga chorava fome. Ouviu o de costume:
— Dorme, que passa.
Rodada 1 · Diálogo
Julgaram seu diálogo com o asfalto como surto. O destino era o CAPS, até que um olhar atento notou: era a prova de um teorema riscado entre dejetos e xorume. Na manhã seguinte, a sirene não pedia internação, mas licença. O asfalto ficou pequeno; Harvard o queria inteiro.
(Jessika Gabriela)
Rodada 1 · Diálogo
Vitrines, janelas, metais, retrovisores. O mundo virou um polígono de espelhos e ela, sua devota. Parava, media-se, interrogava o vidro:
— Espelho, espelho meu, qual manequim é mais belo do que eu?
Rodada 2 · Fotografia
Meus olhos captaram a cena, mas o cérebro processou apenas a dúvida: — traiu? No vácuo do laboratório, a imagem emergiu do banho químico. O papel, ainda úmido, testemunhou: — este é o dia que muda a sua vida.
Rodada 2 · Fotografia
Três segundos de flash, trinta e três de vertigem. O clique que correu o mundo parou o meu relógio por trinta e três anos.
Rodada 2 · Fotografia
A foto gasta bebe o sal; no altar, o dízimo é a lágrima; a fumaça da vela, a redenção.
Ela vê a entrega; você, o medo.
Não te falta fé; falta-te... fôlego. Nasceste humano.
Rodada 3 · Bolso
Sacou o simulacro imitando o falcão que o conduzia. Ao assumir o reinado, inseguro, cerrou os olhos: — Pow!
O pequeno cai. Aperta o bolso da farda que não deveria mudar de cor.
Rodada 3 · Bolso
— Paizinho, quando o Natal vai caber no nosso bolso?
Badalaram os sinos da humanidade descendo dos céus.
— Eu também já fui criança um dia — suspirou, antes de revoar.
— Dorme, filho. Dezembro ainda está longe.
Rodada 3 · Bolso
Costurava à mão os próprios bolsos. Tinha pavor de que o que restou da dignidade escorresse.
Rodada 4 · Banda
Naquele laranjal, todos fediam. Mas só um guardou a banda — aquela que perfumou meu coração.
Rodada 4 · Banda
A lente saltou dos óculos sobre o fiscal. Não derramei uma lágrima: se a vaga for minha, eu enxergo ela até de banda.
Rodada 4 · Banda
Naquela banda do horizonte, o sol dedilha a primeira nota esverdeada por entre os destroços:
— Você me ouve?
— Es/tou/ aaa/quiii(...)
Rodada 5 · Ficção
Vinte anos acorrentada. Pariu o primeiro, o segundo, o terceiro. Quando arrombaram o cativeiro, a luz do sol pareceu-lhe mentira. A verdade morava na alcova, onde o pai dos seus filhos era também o seu; uma ficção incompreensível.
Rodada 5 · Ficção
A mão dele atravessou a luz. A do monstro, não.
Rodada 5 · Ficção
Ninguém escrevia a lápis. O professor, um holograma. Na cadeira de História da Civilização Perdida, o filme sobre a Terra era obrigatório: alunos obesos riam das árvores expostas, enquanto ajustavam o oxigênio intravenoso.
Rodada 6 · Cobre
O cobre vibra na sirene: evacuar! A granada estilhaça o que era vivo. Desesperadas, arrancam as burcas para dar, àqueles que o metal calou, a última coberta.
Rodada 6 · Cobre
Em nome dos bons costumes, fundiu o amor em cobre e poliu a mentira até que parecesse aliança.
Rodada 6 · Cobre
— Cobre a boca, senão entra mosca!
Ou seria se não? Entre a gramática e o perigo, ela se lascou no meio-termo. Enquanto revisava a sintaxe, o moscaral já lhe devorava o sujeito.
Rodada 7 · Melancia
Julgavam-na devastada. Até as primeiras abelhas colonizarem o vazio. Cresceram os frutos, as pessoas, as casas de barro. Depois a terra vincou ramas de melancias em que se ajoelhavam para o terço da graça. Lá revelou-se o nome do milagre, batizaram-lhe: Sertão.
Rodada 7 · Melancia
Sofria de insônia crônica. Esperava que ela caísse no sono para colher seu hálito. O odor de chiclete de melancia soprava a resposta que o coração recusava ouvir.
Rodada 7 · Melancia
Admirava as frutas bordadas, recordando-as algemadas, presas àquele que a tomou como recompensa. Finalmente, a agulha matou o parasita. Sua vida agora tem um ateliê e gosto fresco de melancia.
Rodada 8 · Ano
No baú, a mecha. As décadas não passaram. Joguei a caixa, ficou a tatuagem. Eu vejo você.
Rodada 8 · Ano
Passou a trocar os dígitos pela interrogação. Pedia diante do chantilly que o pavio conservasse a chama. O fogo tremeu. A mesa cheia de crianças disputava o primeiro sopro.
Rodada 8 · Ano
Comemoramos a virada sob o sol, ele não se põe há seis meses. Lá fora ecoa o som cravado em oitavas de Dó menor da ursa que, em silêncio, recorda a época em que via o seu amigo. O gelo.
Rodada 9 · Toa
Desgarrou-se da família cedo, carregando a lembrança do chamado da luz. A bússola do seu coração animal sabia sobre o retorno. Entre a marolinha e o maremoto, a deriva: cada tartaruga reconhece o peso da sua toa.
Rodada 9 · Toa
Encostava na mangueira para aliviar a dor. Ali, lia em voz alta os cordéis que fizera à toa. Naquela cidade de analfabetos funcionais, bastava-lhe uma sombra confortável, nunca estivera sozinho.
Rodada 10 · Umbigo
fez UM túnel BIfásico no eGO do corpo.
Rodada 10 · Umbigo
COF, COF!
Rompeu o cordão umbilical do concreto e alçou voo.
No topo, a atmosfera era um caldo cinza.
Cof, cof!
A metamorfose não veio com cores, mas com fuligem.
Quem foi o arquiteto dessa asfixia, tosse, tosse?
Rodada 10 · Umbigo
A falta do anel dissipou a expectativa. Restou aquela cicatriz que implora para se fechar. Mesmo infeccionada, aborta na esquina o cordão e o aro. A terra acalma: — Próxima.
Rodada 11 · Moeda
A fome dos preços devorou o porquinho. Do arremesso contra a parede restaram estilhaços e um silêncio metálico no chão. Ali, entre o pó e o cobre, ele percebeu: o futuro não cabe mais num amealheiro.
Rodada 11 · Moeda
Toda noite, seu corpo era uma troca feita para amortizar a dívida eterna jurada à casa.
Rodada 11 · Moeda
Alinhava o círculo ao céu para a estrela caber no metal. Lá de cima, ao vê-la, tateou a moeda no bolso: o infinito não cabe em dois lados.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.
Escolha uma palavra e leia um por um, até o último.