Rodada 1 · Diálogo
— Você me escuta?
— Escuto, mas você fala baixo demais para atravessar meus medos.
— Então chegue mais perto; minhas palavras não mordem.
— Não mordem, mas mudam tudo.
E foi assim que, entre duas respirações, nasceram dois mundos conversando.
Rodada 2 · Fotografia
A cidade acordou com cheiro de pão queimado, embora nenhuma padaria existisse havia décadas. As ruas, feitas de azulejos moles, dobravam-se como língua cansada, e os postes cochichavam segredos para os gatos invisíveis. No centro da praça, um relógio enterrado até o pescoço soluçava horas líquidas, que escorriam pelo chão e formavam pequenos lagos de ontem.
Eu me sentei na beira de um desses lagos e mergulhei a mão, esperando sentir água, mas encontrei cartas fechadas, todas endereçadas a mim por pessoas que nunca nasceram. Abri uma delas: dentro havia apenas uma fotografia de mim mesmo, sentado ali, abrindo a mesma carta, enquanto atrás de mim a cidade, envergonhada, tentava voltar para dentro do relógio.
Rodada 3 · Bolso
No fundo do meu bolso encontrei um céu dobrado.
Sacudi a calça e caiu uma estrela com cheiro de moeda antiga.
Desde então ando torto —
acho que o universo está pesando só de um lado.
Rodada 4 · Banda
A banda tocava na praça vazia como se o mundo ainda estivesse ali.
O trompete insistia no agudo, rasgando o silêncio das janelas fechadas.
O baterista marcava o tempo de um coração que não era o dele.
Só a menina da bicicleta parou para ouvir.
E por três minutos, a cidade voltou a respirar.
Rodada 11 · Moeda
A moeda caiu às três da manhã.
De um lado dizia: “O que você perdeu.”
Do outro: “O que nunca teve.”
Ele tentou jogá-la fora.
Mas ela sempre voltava para o bolso do peito.