Rodada 1 · Diálogo
A mudez era como se o teto caísse sobre suas cabeças. O diálogo era ainda pior: fazia o edifício inteiro ruir.
Campeonato de microcontos · Autores
33 microcontos no 11º campeonato, com todas as 11 palavras.
Rodada 1 · Diálogo
A mudez era como se o teto caísse sobre suas cabeças. O diálogo era ainda pior: fazia o edifício inteiro ruir.
Rodada 1 · Diálogo
- Um dia, logo eu volto. Ou, um dia, eu volto, logo.
- O que disse, menino?
- Está aqui, na lição. Veja.
- Não é dia, e nem logo. Uma palavra só, burrinho. E veja o acento, burro.
- Eu sei. Coloquei à prova pela primeira vez. Não gostei.
Rodada 1 · Diálogo
Estavam fartos da mesmice. Escolheram juntos o artigo de luxo. A quem possa interessar; o diálogo.
Rodada 2 · Fotografia
Desbotada, rasgada nas pontas, com manchas de sujeira e odiada pelo tempo, não valia mais nada. Atrás, a letra tremida, em caneta azul, ainda permanecia. "Lembre-se de mim. Vovó Maria. Belo Horizonte 1958."
Rodada 2 · Fotografia
Com aquele fundo branco e o rosto centralizado em demasia, ela parecia um defunto. Pagou pelo serviço, não sem antes amaldiçoar os oito quadradinhos 3x4 que a reduziram àquela morte em papel.
Rodada 2 · Fotografia
A imagem captou aquilo que ela tentou esconder por anos. Abraçada aos filhos e ao marido, o sorriso chegou, triunfante anfitrião. O olhar, todavia, a rasgou. Então, fez o mesmo com a fotografia - em dez pedaços.
Rodada 3 · Bolso
Sorriu ao passar o ferro quente. Então era por ali que as bolinhas de gude escapavam. Buraquinho pequeno e perdas dolorosas. No peito, ela carregava um rasgo do mesmo tamanho.
Rodada 3 · Bolso
Sua mãe sempre encontrara uma nota de dez no bolso do marido. Ela, nunca. Casara-se na era do PIX.
Rodada 3 · Bolso
Começou a digitação. Que horror. Até o Google só pensava em política.
Rodada 4 · Banda
- Onde fica a marcenaria do Seu Rosalvo?
- Lá para as banda do centro, segue reto, toda vida. Não tem como se perder.
- Agradecido.
Rodada 4 · Banda
O ângulo de inclinação estava além do permitido. Ia afundar. De repente, uma mulher entrou na cabine do comandante e fez cara feia. "Ainda na banheira brincando de barquinho?" O menino deu de ombros. "Corrigir a banda é fundamental para a navegação, mamãe."
Rodada 4 · Banda
Entrou na sala de aula e quase deu meia-volta. Suspirou e começou pela gramática. Ao final, um dos alunos a presenteou com uma banda de maçã. Ser professora tinha lá suas vantagens.
Rodada 5 · Ficção
Vivia no mundo da Lua. Das estrelas, fez família. Planetas, vizinhos. Asteroides e cometas, primos de terceiro grau. Fazia da vida sua própria ficção.
Rodada 5 · Ficção
Fechou os olhos e o cenário mudou. Dentro dela, tudo era criação; não existiam bombas nem tetos caindo. Ao reabri-los, convenceu-se: era ficção. Tudo ficaria bem.
Rodada 5 · Ficção
Absorto na leitura, o psiquiatra não sentiu o tempo passar. "Livro científico?" escutou alguém perguntar. Depressa, fechou a obra. Se vissem a ficção que lia, sua credibilidade tombaria.
Rodada 6 · Cobre
O vestido era de matar. Sentia-se absurdamente linda. Saiu do quarto e ouviu atrás de si:
— Cobre o decote, mamãe!
Rodada 6 · Cobre
Ela enxergava a vida em tons de cinza; por vezes, no completo breu. Chorava constantemente, mas ninguém via lágrima alguma. Certa vez, tentou tirar aquele manto, mas a voz chegou como um trovão. "Cobre logo! Quer me envergonhar?" De imediato, recolocou a burca.
Rodada 6 · Cobre
Estava com sono, mas desejou tocá-lo. Passou o dedão na perna dele. "Cobre logo os pés e me deixe dormir, mulher". Apesar da frustração, sorriu. Ao menos ele conhecia suas manias.
Rodada 7 · Melancia
Estava horrorizado. A avó tinha razão. Nunca se deve engolir uma semente, senão ela cresce na barriga. A prova estava ali: sua mãe carregava uma melancia inteira sob o vestido. Ela nunca coava os sucos; era mais inocente que o filho de quatro anos. Dias depois, o bebê nasceu saudável.
Rodada 7 · Melancia
Sentiu o cheiro de terra molhada. Agachou-se e abraçou o fruto pesado. E, então, lembrou-se dela: sempre doce, de bochechas avermelhadas e até as sardas evocavam pequenas sementes. Ele desejava que ela nascesse outra vez.
Rodada 7 · Melancia
Desferiu um chute na caixa de papelão, certo de que atingiria aquela besta de mulher. Não contava, porém, com a melancia escondida lá dentro. O estalo do pé ao quebrar foi o sinal para que ela gargalhasse e partisse, vitoriosa.
Rodada 8 · Ano
Determinou que seriam os melhores doze meses de sua vida. No dia seguinte à promessa, a luz intensa do farol a cegou; ela voou, e aqueles votos alcançaram o céu.
Rodada 8 · Ano
Chorou na primavera, e se encolheu no verão. No outono, nada viu, mas no inverno renasceu. Foi um bom ano, e ainda estava em julho.
Rodada 8 · Ano
É o meu ano, pensou com o diagnóstico de finitude nas mãos. A fé venceria aquele veredito de papel.
Rodada 9 · Toa
"O que significa esta bagunça? Louça, roupa, tudo imundo!" "Você não disse que eu era à toa?", ela apenas perguntou.
Rodada 9 · Toa
No Velho Chico, a canoa descia de toa. Apesar do surubim aos pés, não se alegrou. A intenção era devolução. Mas sua vida também era assim, à mercê da toa.
Rodada 9 · Toa
Mineiro, nunca tinha visto o mar. Escolhera a Bahia como Porto Seguro. "Tô à toa", disse para ninguém, mas disse em voz alta. "O que manda, chefe?", um barrigudo perguntou. Ambos diante da barraca Tôa Tôa.
Rodada 10 · Umbigo
Guardou o umbigo em uma caixinha. Em breve, ele estaria no jardim, perto das roseiras. Só não contava que Biscoito o comeria de sobremesa no dia seguinte ao plantio.
Rodada 10 · Umbigo
Fina como minhoca, cinco dedos abaixo do umbigo, com quatorze centímetros de comprimento. Ali estava a marca. Antes, nunca lhe dera atenção. Era só um órgão, afinal. Agora que não o tinha mais, sentia como se tivesse sofrido um roubo seguido de morte.
Rodada 10 · Umbigo
Apesar de suas oitos patas, pensou que seria incapaz de percorrer aquele caminho. Suas costas pareciam tão grandes como casco de tartaruga. Quando chegou no vale, sugou, agradecido. Pelo que soube, ali abrigou um cordão que alimentava um feto.
Rodada 11 · Moeda
O grande dia chegara. Sabia que a despedida seria dolorosa. Pediu desculpas pelo que estava prestes a fazer, e uma bolinha de lágrima escapuliu na cerimônia. Então jogou o porquinho no chão. Mil pedaços para quase nenhuma moeda.
Rodada 11 · Moeda
Estava de costas para ela, pronto para lançá-la por cima do ombro esquerdo, como manda a tradição. Engoliu saliva ao apertar a pedrinha entre os dedos. Desejou ter ao menos uma moeda daquela fonte.
Rodada 11 · Moeda
Ficou imóvel diante da descoberta. Não queria mais o pirulito. O avô estava ali, estampado naquela ficha prateada. A careca e o bigode eram iguaiszinhos. Fechou os dedos e o sentiu em seu coração. Sorriu para a tia da mercearia.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.
Escolha uma palavra e leia um por um, até o último.