Rodada 1 · Diálogo
SOBROU ALGUÉM NESSA HISTÓRIA.
Não rareavam os dias sem que os diálogos acontecessem.
Curtos ou longos, às duas bastavam.
Sanavam as dúvidas.
Assuntos diversos, velhos ou novos.
Nunca faltavam.
A distância, a conexão diluía.
Na mesma frequência a IA também ia.
Do inevitável encontro, o fim da "amizade".
Rodada 1 · Diálogo
VIDA A DOIS
Com o marido se limitava a falar não mais do que o necessário.
De senso pouco apurado, às novidades o homem resistia.
Décadas de casados, se resumiam num casual dom-dia.
Ela voava.
Ele plainava.
Seguros, voltavam à noite para o mesmo ninho.
Rodada 1 · Diálogo
METAMORFOSE
A borboleta e a lagarta discutiam, sem chegar a um consenso de quem era mais importante naquela história.
— Consciência vem antes de vaidade no dicionário.
Disse o velho pássaro antes comê-las.
Rodada 2 · Fotografia
FIDELIDADE CONJUGAL
Nas redes sociais estava o registro das últimas férias em família. Era ano de eleição. Explicava o candidato à amante.
Rodada 2 · Fotografia
DEMÊNCIA
Nos álbuns foi ficando o tempo que a memória esquivava-se para guardar.
Rodada 2 · Fotografia
ENLACE
Congelada num porta-retrato estava toda felicidade que ela conhecia. Ela vestida de branco. Ele fumando um cigarro em frente a igreja.
Rodada 3 · Bolso
SUBVERSÃO.
Passados os anos de chumbo, o povo extasiava-se com o hit do momento, pelado, nu com a mão no bolso.
Rodada 3 · Bolso
A ESCRITORA
Depois de escrever uma carta, vestiu o casaco, encheu os bolsos de pedras e atirou-se num rio.
Não suportou o peso daquela existência.
Rodada 4 · Banda
A banda podre governa onde o povo aprendeu a dançar conforme a música.
Rodada 4 · Banda
NATAL EM FAMÍLIA
O menino que não conhecia os dizeres da roça, ficou intrigado quando o tio comunicou que traria a banda de um porco.
Rodada 5 · Ficção
A CONTADORA DE HISTÓRIA.
Analfabeta, criava mundos para alimentar a esperança das filhas.
Rodada 5 · Ficção
UTOPIA
Acreditou que sendo bom mudaria o mundo.
Rodada 6 · Cobre
DESPEDIDA
Não se cobre tanto.
A vida é inegociável.
Disse a avó no seu leito de morte.
Rodada 6 · Cobre
ALTA TENSÃO
Por um fio, perdeu a vida.
Rodada 6 · Cobre
SINISTRO
A cidade estava às escuras.
À luz de vela, a quadrilha contabilizava o lucro daquela noite.
Rodada 7 · Melancia
FRAQUEZA COGNITIVA
Comia melancia todos os dias.
Não sabia defini-la.
Se era fruto ou sobrevivência.
Rodada 7 · Melancia
MELANINA
É tão rosada, não fossem essas pintinhas pretas...
Rodada 8 · Ano
2025.
Foi o seu melhor ano.
Conheceu um campeonato de microcontos.
Pensado nos desafios de escrever um conto todos os dias, esqueceu dos seus problemas.
Rodada 9 · Toa
UNIDADE DE MEDIDA
— Fica longe o açude?
Quis saber o turista que andava à toa pelo sertão.
— A duas cantigas, respondeu a mulher que seguiu cantando com a trouxa de roupa na cabeça.
Rodada 9 · Toa
PEDRO PEDREIRO
Era domingo e estava à toa na vida.
Foi ver a banda passar.
Parou para descansar como se fosse sábado.
Acordou com o guarda, gritando:
—Vai trabalhar, vagabundo!
É segunda-feira!
Rodada 10 · Umbigo
TÉTANO.
Falava de uma filha que havia morrido do mal do sétimo dia.
Guardava consigo uma moeda.
A única lembrança que tinha da recém-nascida.
Rodada 10 · Umbigo
O EMPREENDIMENTO.
Na comunidade não havia quem não tivesse aquela marca no meio da barriga.
De tão comum que era, ninguém pensava nela.
Um tatuador vendo um jeito de ganhar dinheiro com aquilo, mexeu com a vaidade de todo mundo.
Não teve quem não olhasse para o próprio umbigo.
Rodada 11 · Moeda
1994
No país da URV, um povo vivia feliz com a conquista do tetra.
Rodada 11 · Moeda
O ALTO DA COMPADECIDA
Parou o filme pela metade.
Observou o gato pela janela.
Equipou-se de pá e enxada com o sonho de ficar milionário.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.