Rodada 3 · Bolso
Nos bolsos dos homens encontram-se carteiras, notas dobradas, moedas, documentos.
Os bolsos femininos estão vazios, afinal, bolso… palavra tão fria.
As mulheres transportam muito mais. Preferem as bolsas, onde levam seus mundos.
Bolsa... palavra tão quente.
Rodada 3 · Bolso
Um livrinho de bolso, com poemas de Quintana, documento, algumas moedas — troco de uma água de coco.
— O que você faz da vida, rapaz?
— Sou torneiro, senhor.
— Um torneiro que lê Quintana?
Sem tirar as mãos da parede:
— Um policial que sabe quem é Quintana?
Silêncio...
— Pode recolher.
Tudo de volta ao bolso.
Foi o que vi: gente atravancando meu caminho enquanto passarinho.
Rodada 4 · Banda
Era um disco de duas faixas, nem tudo era single, a outra banda era apenas o lado b. Era uma banda de duas canções, apenas uma era inteira.
Rodada 4 · Banda
O ruído o movia, o silêncio o sustentava.
O ruído queria o mundo, o silêncio queria sentido.
Metade era ruído, a outra parte silêncio.
Tentou ser completo e não conseguiu.
De repente, um estalo: não era metade de nada.
Não era regente nem regido, era a banda inteira, harmonia e canção.
Rodada 4 · Banda
A BATUTA E A BAQUETA
A batuta rege a baqueta,
A mão na batuta rabisca o espaço,
A mão na baqueta repica o ar.
A batuta numa mão,
A baqueta em outra,
Uma desenha em silêncio,
A outra reverbera o som.
Entre gesto e impacto,
Não há comando sem tom.
Rodada 5 · Ficção
Agarrava-se à ficção para não cair na realidade.
Quando o livro se fechava, a queda:
a conta vencida sobre a mesa;
a louça suja em água turva;
as olheiras escuras, como noite mal dormida;
o silêncio do espelho, maior que qualquer épico.
Rodada 5 · Ficção
— Na ficção, as despedidas são longas, não acha?
— Sim. Na vida real, um simples aceno é, quase sempre, o último.
Conversavam trivialmente na estação.
Rodada 6 · Cobre
O fio de cobre conduz a luz.
O fio da meada conduz o pensamento.
Por um fio, a esperança.
O homem, por um fio, se sustenta.
Cobre-se de fé e se deixa conduzir.
Como luz em fio de cobre.
Rodada 7 · Melancia
Era só melancia.
Uma fatia bastava para o peso surgir.
Sabia disso.
Comia assim mesmo.
Depois, deitava-se com o gosto doce na boca e o arrependimento no estômago.
Rodada 8 · Ano
No último dia do ano, ele decidiu que não faria promessas.
Durante meses repetira que no próximo ano seria diferente: leria mais, beberia menos, amaria melhor.
O ano vinha, passava, e ele continuava o mesmo: adiando-se com disciplina.
Rodada 8 · Ano
Dia após dia, a velha senhora dedicava-se à limpeza de sua pequena casa. O chão, polido com paciência, refletia o teto; os móveis, bem conservados, brilhavam; os utensílios, quase translúcidos, pareciam feitos de luz.
Quem passava se admirava: uma senhora tão só… de onde vinha tanto ânimo?
Ano após ano, perdera todos os que amara e, ainda assim, insistia:
Enquanto o mundo lhe retirava tudo, ela ainda podia polir o que restava, e isso bastava.
Rodada 8 · Ano
Milagres, conquistas, poder, glória... era o que ouvia da vizinhança desagradável. Era ano-novo, os iguais se reuniam, brindando futuros grandiosos.
Solitário, pensava em si e nos caminhos a seguir. Não teria milagres nem conquistas espetaculares; poder, menos ainda.
Com o coração pesaroso, recordou: não estava realmente só, e nada do que fosse essencial lhe faltaria.
Rodada 9 · Toa
Não sabia espremer um limão, mas queria ensinar sobre arte, política, economia e o estado das coisas. “Ensinava” a milhares que o seguiam.
Julgado pela própria incapacidade, outro nem-nem o defendeu. Estava posta a batalha dos à toa: onde palavras, mais ou menos ríspidas, feriam tão profundamente quanto baionetas.
Rodada 9 · Toa
Explicava-me sobre o Tao e seu significado como fonte de tudo.
Disse-lhe que preferia estar à toa a perder-me em tais devaneios.
Ela retrucou dizendo que isso é muito toísta:
—Afinal, é melhor aproveitar a realidade enquanto a temos.
Rodada 11 · Moeda
Para ter tudo o que quero, me falta o que o mundo exige sob a máscara do cuidado. Se dou moedas a mais, sorrindo silenciam; se me faltam trocados, os olhares me condenam. “Você só vale o que tem” me disse um amigo. Nada tenho e, ainda assim, sou inteiro. O valor da vida não se mede pelo dinheiro.
Rodada 11 · Moeda
A calça era justa, contornava em seus quadris o que a natureza desenhara. Mesmo assim, o tilintar das moedas se ouvia, era quase meio-dia.
Apressada na calçada, atravessava o alvoroço, já era hora do almoço!
Rodada 11 · Moeda
“Inevitável”, disse.
Nem trinta moedas de prata.
Partiu por nada.
E ainda chamou de destino.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.