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3 Serpentes

Campeonato de microcontos · Autores

@acasodre

33 microcontos no 11º campeonato, com todas as 11 palavras.

Rodada 1 · Diálogo

Diálogo Noturno

Passo boa parte do tempo em silêncio, ouvindo músicas no celular e me atualizando sobre política e futebol. Às vezes alguém chama no portão: “É o senhor fulano, para a senhora beltrana do 73”. Devia mudar meu nome para Boa Noite, já que é assim que todos me chamam.

Rodada 1 · Diálogo

Redes sociais

O próprio diálogo desistiu quando teve que argumentar que a terra era plana.

Rodada 1 · Diálogo

Diálogo de classes

E o pedido chegou no celular do motociclista de aplicativo.

Rodada 2 · Fotografia

Fotografia contemporânea

— “Nossa, vocês ficaram incríveis nessa selfie. Onde foi que tirou?”
Uma longa pausa.
— “Não faço ideia.”

Rodada 2 · Fotografia

Negativo e positivo

Enquanto organizava as coisas da mãe, que partira aos noventa anos, encontrou uma caixa de fotos. Nelas, ela aparecia com outra família, sempre feliz. Ao lembrar do pai que teve, não conseguiu evitar um sorriso.

Rodada 2 · Fotografia

O último registro

Revelou a árvore imponente, de beleza intratável, que ainda resistia bravamente à areia que se aproximava por todos os lados.

Rodada 3 · Bolso

Verdade velada

Ela vasculhava o armário do pai, em busca de trajes para o funeral. Entre tecidos gastos, encontrou seu paletó preferido. No bolso repousava uma carta de amor, amarelada, enrugada e jamais enviada. No canto da sala do velório, uma mulher desconhecida chorava.

Rodada 3 · Bolso

Equilibrista

Ele desperta já calculando os passos. O bolso raso é sua barra de equilíbrio, e cada troco economizado uma acrobacia bem executada. A sobrevivência é espetáculo sem plateia. O aplauso mudo é alívio: atravessar mais um dia. Todo o mês, o ato recomeça.

Rodada 3 · Bolso

Aparências

Todos invejam o amor que exibem. Sorrisos, mãos dadas, beijos calorosos. Um espetáculo impecável. Mas cada um guarda no bolso o mesmo segredo: não suportar mais encarar o rosto do outro.

Rodada 4 · Banda

Marchinha

O homem sério que contava dinheiro parou.
Trabalhadores essenciais não pararam o labor.
Gente sofrida nunca se despede da dor.
Não viram a banda passar, cantando coisas de amor.

Rodada 4 · Banda

Coração partido

Caminhava de banda a banda sem parar. No vaivém da procura, juntava os cascos de si que, num dia sem aviso, ela espalhara por aí.

Rodada 4 · Banda

O fim de tudo

Trabalhava em uma ilha remota, saltando de banda de frequência em banda de frequência no rádio. Ouvia a humanidade falar e fazia anotações. Certo dia, sem aviso, tudo parou. Apenas estática. Foi descansar.

Rodada 5 · Ficção

A Incrível Ficção da Aposentadoria
O RH fez uma festa de despedida. Teve de tudo, bolo e brigadeiro. João bateu o ponto pela última vez e guardou sua marmita, sentindo o peso dos passos no piso de ferro. Na face, a fadiga. Seu descanso agora é o volante em punho e o peso de passageiros apressados.

Rodada 5 · Ficção

Mais realidade que a ficção
O algoritmo previu o café frio e a promoção às dez. Antes de Ana sentir sede, o drone entregou a água. Ao meio-dia, o app comprou o anel de noivado que Pedro ainda não sabia que queria dar. Às onze, recebeu uma mensagem com desconto em coroas de flores. Dois minutos depois, o hospital ligou.

Rodada 5 · Ficção

Atualização de sistema

Helena sentiu o rosto travar em um brilho azul. No espelho, seu sofrimento era binário. As lágrimas escorriam em código. O sistema ignorava seu grito desesperado. "Arquivo corrompido, deletar?"

Rodada 6 · Cobre

Cobrador

Ao lado da roleta, o sol ardente marca seu braço. Os ônibus no terminal cobrem o asfalto de fumaça, enquanto ele finge não notar a molecada passando por baixo da catraca.

Rodada 6 · Cobre

Pulmões de cobre

Na escuridão da mina, o brilho metálico rasga a pedra bruta. O suor cobre o rosto do mineiro. Cada marretada rompe o silêncio com o som do lucro alheio e levanta o pó que se deposita no peito, endurecendo a respiração, tornando-a pesada como o minério.

Rodada 6 · Cobre

Manto de Cobre

— Me cobre o aluguel amanhã! — implora o pai. O dono do cortiço esmurra a porta: — Meu dinheiro agora, ou rua!
No canto, a mãe cobre o filho que chora sob a manta gasta.

Rodada 7 · Melancia

O Corte

A lâmina brilhava sob a luz da cozinha O braço ergueu-se, firme, e pairou no ar por um instante que pareceu eterno. A faca desceu. Violência contida, precisão mortal. Não houve grito. O verde se abriu, revelando o vermelho vivo da polpa da melancia. Era o começo da partilha.

Rodada 7 · Melancia

Semeadura

Era uma vez um homem esfarrapado, numa pobre vila, que carregava uma melancia pendurada no pescoço. O povo chamava-o de louco. Um dia, os deuses mandaram um tornado. A melancia se partiu, espalhando as sementes pretas pelos campos. O fardo virou abundância. O riso, gratidão.

Rodada 7 · Melancia

O Grande Prêmio

Depois da feira, meninos e meninas corriam entre caixas e bancas, catando frutas esquecidas: maçãs mordidas, bananas amassadas, uvas soltas. Quando encontraram a melancia intacta, enorme e reluzente, encheram-se de felicidade. Acharam um tesouro vermelho escondido no verde.

Rodada 8 · Ano

Anos dourados

Não foi nada engraçado
te ver com um novo amor.

Rodada 8 · Ano

1968

Em 13 de dezembro, o governo militar de Costa e Silva promulgou o AI-5. O ato permitiu cassar mandatos, suspender direitos políticos, fechar o Congresso e decretar estado de sítio. No porão do DOPS, dois homens empoderados entravam na sala escura onde uma jovem estava amarrada na cadeira.

Rodada 8 · Ano

1985

No dia 15 de março, José Sarney tomou posse como presidente após a eleição indireta. Com o juramento no Congresso, encerraram-se oficialmente os 21 anos da ditadura militar no Brasil. Uma senhora, que teve a filha em um porão sujo do DOPS, chorava.

Rodada 9 · Toa

Maldição

Ela ignorou os avisos no píer. O barco segue à toa. Na proa, ela encara a névoa. Pegadas molhadas surgem no convés. Um ser de pele de algas e sal, cheiro de peixes mortos e olhos sem brilho se aproxima. Ela sente sua respiração fria na nuca, e o silêncio pesa mais que o mar.

Rodada 9 · Toa

A banda

O velho estava à toa na vida, quando a revolução lhe chamou. Tambores rufaram, bandeiras tremulavam. A massa seguiu rumo à mansão do doutor, com clamor de libertação. Ele apenas sorriu, deitado na rede, embalado pela ventania que se formava com sede.

Rodada 9 · Toa

Economia contemporânea

Barco pequeno, motor que engasga, casco que range sob o peso de bilhões. O leme, duro, responde com atraso. Avança contra a própria impossibilidade. Toa o iate colossal, onde poucos brindam com champagne e comem caviar.

Rodada 10 · Umbigo

(O estranho caso da multiplicação) Nasceu com umbigo, deppis surgiu o segundo, depois o terceiro, depois o quarto...Não sobrava tempo senão para cuidar dos próprios umbigos.

Rodada 10 · Umbigo

(Umbigo do mundo) Caiu junto com a riqueza.

Rodada 10 · Umbigo

(Origem) A flor de Narciso floresceu do umbig o do corpo a beira do lago.

11 MOEDA

heltPAGINA 70

Rodada 11 · Moeda

Esquina

O homem de muleta se aproxima do carro. O motorista balança a cabeça e murmura “Não tenho…”. Tem sim, só não quer pensar sobre a situação.

Rodada 11 · Moeda

Moeda Amarga

Por anos, pensou, planejou e arquitetou cada detalhe. Enfim, pagou com a mesma moeda. Vingado, viu-se vazio, vivendo a mesma miséria.

Rodada 11 · Moeda

Loteria

Era uma vez um homem apaixonado. Um dia, ganhou o grande prêmio. Foi à agência bancária e exigiu os seus milhões em moedas de centavos.
Ao lado da funcionária foi feliz, entre o brilho frio do metal e o compasso lento da contagem.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante o 11º Campeonato de Microcontos.

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